Artigo: London veneno
Por Wilson Liberato (De São Paulo/SP)

Em 1971, o compositor e cantor baiano Caetano Veloso estava exilado em Londres, perseguido pela trevosa ditadura militar que assolou o Brasil. Foi lá que ele compôs a consagrada canção London, London. Na letra e melodia plangentes ele observava que os policiais londrinos eram gentis e prestativos – em contraste com os truculentos fardados de seu país à época. A música fez muito sucesso em seu lançamento, sucesso ressuscitado nos anos 80, na voz de Paulo Ricardo (RPM).
Embora a pronúncia das palavras na canção original fosse próxima do impecável, havia algumas coisas na gramática e no léxico (vocabulário) que me incomodavam. Mas, consultada, minha então adorável professora Solange Ribeiro de Oliveira, Livre-Docente em Inglês do curso de Letras da UFMG (anos 70), condescendente, considerou as passagens que eu achava discrepantes como licenças poéticas e a vida seguiu.
Em recente entrevista à Revista Veja (junho/23), o cantor britânico Ritchie, radicado no Brasil (Menina veneno – hit estrondoso de 1983), declarou que se recusou a gravar London, London porque “ali há uns erros de inglês que eu não ficaria confortável em cantar. O Paulo Ricardo gravou e virou um enorme sucesso. Ele cantou o inglês errado com uma convicção que eu não teria”. Na entrevista ele não cita os tais erros.
Quais seriam os erros de inglês que incomodaram Ritchie no texto de Caetano Veloso? Volto às mesmas atrevidas consultas que fiz à Professora Solange, tentando aqui omitir conceitos técnicos. Assim, leitor, com sua licença, e sem desdouro à obra, presumo que as inadequações sejam as seguintes:
1. London is lovely so. Deveria ser: London is so lovely. 2. Everybody keeps the way clear. O adjetivo clear (claro; limpo) não se aplica nesse caso. O certo seria: Everybody keeps the way free. 3. My eyes go looking for flying saucers in the sky. O verbo go deveria ser substituído por keep: My eyes keep looking for… 4. I just happen to be here, and it’s okay. O adequado seria: I just happened to be here. Ou: I’ve just happened to be here. 5. I came around to say yes, and I say. Deveria ser: I’ve come here to say yes, and I say.
Preciso ressaltar que sou um apaixonado pela obra de Caetano Veloso, principalmente nessa canção. Ela foi lançada bem no ano em que tive que sair de minha terra natal (Formiga) para viver em outro estado. Outra cultura, outra comida e uma linguagem diferente. Um tipo de exílio. A distância do lar, da família e dos amigos faz com que a gente realmente procure improváveis flying saucers – discos voadores no céu, em busca de socorro, de alento. A solidão, a falta de pertencimento. Lembro-me de outro famoso cantor baiano que clamava de seu quarto de pensão, longe de casa: “Ôôô seu moço, do disco voador, me leve com você, pra onde você for!”
Contudo, a letra de London, London é rica em aliterações (I know no one here; He seems so pleased to please them...); rimas ricas (go/so/hello; fear/clear; me/peacefully; mess/possess/happiness).
Se eu fosse Ritchie, teria, na ocasião, conversado com Caetano sobre a possibilidade de fazer algumas alterações na letra. Acho que o gênio baiano não se oporia. Afinal, ele não se importou (muito) com o acréscimo solicitado que Roberto Carlos fez em Força estranha. Mas a gente sabe como são os britânicos no tocante à finesse. Eu gostaria de ouvir a interpretação de Ritchie da serena London, London. Afinal, foi ele quem disse que a “menina veneno” tem um jeito sereno de ser. Sorry, guys!