Dez perguntas para Silviano Santiago

Uma publicação regional só é sucesso com a participação ativa de seus leitores. Muito ativo e atento, o advogado Thiago Muniz enviou à redação da “a par” uma importante matéria em forma de entrevista que o escritor e jornalista Lula Lacerda, do “Site do Rio”, fez com o escritor e ensaísta formiguense Silviano Santiago pelo Dia Mundial do Livro comemorado em 24 de abril.
Silviano é hoje um dos maiores intelectuais brasileiro e o escritor e língua portuguesa vivo mais premiado. Em 2023, ele será o próximo a receber o “Prêmio Camões” das mãos dos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.
A entrevista
No Dia Mundial do Livro, no dia 23 de abril, um domingo, data escolhida pela Unesco, a coluna de Lula Lacerda conversou com Silviano Santiago, sempre vibrante, na ficção e na realidade, com senso de humor, em conversa particular ou de salão, por vezes modesto, quando fala de si ou da sua trajetória, mas deixando sempre uma forte impressão, seja na situação que for.
As credenciais desse mineiro-carioca nascido em Formiga, que começou a viver das Letras em 1954, escrevendo para uma revista de cinema ainda em “Beagá”, bem antes de se mudar para o Rio, estão entre as maiores da atualidade – foi o vencedor do Prêmio Camões 2022, o mais importante da língua portuguesa, quando disse: “O reconhecimento fortalece, é a garantia de que não estou tão errado no meu caminho”. Além do Camões, já ganhou o Oceanos, Machado de Assis, Casa das Américas e Faz Diferença, além de três Jabutis.
O escritor, professor e crítico literário, doutor pela Sorbonne, ex-professor universitário na Europa, nos Estados Unidos e em universidades brasileiras, como a PUC, tem 86 anos e é autor de mais de 30 livros.
Em março, Silviano tomou posse na cadeira 13 da Academia Mineira de Letras (AML), ocupada antes por Paulo Tarso Flecha de Lima. Entre os seus trabalhos mais famosos, estão: “Ariano Suassuna (Antologia comentada)”, de 1975; “De cócoras”, de 1999 e “Machado”, de 2016.
Não de hoje, por fatores que já conhecemos, o Brasil sofre um paradoxo literário: são milhares de escritores, cada dia mais livros lançados e, mesmo assim, segundo a última pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, apenas 52% da população tem esse hábito. Em comparação com a média de outros países, o brasileiro costuma ler somente quatro livros por ano, enquanto o canadense lê 12. Um dos fatores para esse número é a ampla concorrência com outros tipos de mídia. Leia sua entrevista:
Dia 23 comemora-se o Dia do Livro. Temos motivo pra comemorar? No Brasil, 44% da população não lê e 30% nunca compraram um livro. Tem como um escritor se manter otimista?
Há livros e livros, escritores e escritores. Os profissionais, que dependem do livro, são tão generosos e abnegados quanto os professores de ensino elementar. Acreditam em algo que transcende a ambição do comum dos mortais. Comemoro o Dia do Livro pelos escritores profissionais e pelos professores, que aproximam o livro – ou a escrita fonética H dos futuros cidadãos.
Que papel tem o livro na sua vida?
Duplo. Eu me autossustento como professor de Literatura para me dedicar sem amarras à escrita de livros.
E como define a tarefa de escrever para um país que não lê?
Não sou um escritor profissional. Não escrevo para um país nem para o mundo — minha tarefa como escritor é fazer ficção para pessoas que gostam de ler livro ou sentem prazer ao lê-lo. Por que razão leem? Talvez por motivo semelhante ao que leva multidões a assistirem a uma peça de teatro, um filme ou novela, e ir a museus.
Vemos influenciadores digitais produzindo conteúdos irrelevantes para milhões, enquanto escritores clássicos ficam no completo esquecimento… Como vê essa falta de interesse em livros e consumo digital de conteúdos em vídeo?
Se não for natural, a leitura é hábito a ser inculcado na criança — um hábito útil e especial que não deve ser confundido com a atual e rotineira curiosidade de se informar diária e superficialmente sobre as pessoas, os fatos e o mundo. Machado de Assis, em “O Alienista”: “Se os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo?”. A leitura de livro é a cor amarela.
Vivemos num país sem Ministério da Cultura por algum tempo. Vê a cultura nacional com otimismo?
A cultura é como o oceano, imensa, não tem fronteiras nacionais. Uma pessoa molha o corpo na água salgada quando puder e quiser. A formação educacional indiscriminada (em língua nacional) e o acesso indiscriminado à cultura (em língua nacional) são obrigações constitucionais do Estado-nação. Nota zero a essa administração em falta grave. Que perca as eleições seguintes. No mais, são os acessos prazerosos à cultura. O desejo de uma pessoa tomar um banho de cultura. Neste caso, o Estado decreta ponto facultativo.
“O mundo literário moderno não é oportunista, é ágil e esperto”
Muita água já rolou desde a publicação do seu primeiro livro até o último. O que mais mudou nesse meio tempo no mundo literário?
O mundo literário moderno não é oportunista, é ágil e esperto. Os artistas da palavra são como esses animais que mudam de cor em concordância com o ambiente. Não há possibilidade de se manter uma escrita literária moderna sem expressar a experiência do anonimato — da própria insignificância — numa sociedade de massa.
Você foi ganhador do Camões 2022, o principal da língua portuguesa. Prêmios são uma meta ou consequência?
São o resultado de concursos públicos. Ambos dependem de inscrição e da vontade livre da banca de jurados. Como em qualquer concurso público, cujas respostas às questões não são previstas pela múltipla escolha, o júri busca destacar a melhor qualidade do objeto a ser destacado. A sensibilidade, a imaginação e a inteligência dos membros da banca espelham as da vencedora ou do vencedor. O prêmio pode ser meta, consequência e até falsa honraria. Depende.
Como despertar o interesse pela leitura se uma assinatura de “streaming” custa metade do preço de um livro?
Em campanha eleitoral, os políticos não dizem que é importante desenvolver a cultura de uma nação porque ela gera empregos? Se uma pessoa conseguir interpretar, anonimamente, a sua pergunta ou o lugar comum da fala política, estará apto a escrever uma grande obra contemporânea de literatura.
O que está lendo no momento e qual seu livro da vida?
Não foi gratuito o elogio daquele animalzinho chamado camaleão. Durante muitos anos, queria dizer que eu era uma pessoa “fickle” (inconstante, versátil…) e acabava dizendo que era “fuckel” (filho da puta). As pessoas riam pensando que era um trocadilho. Não era. Era uma confusão semântica inconsciente. Eu próprio julgava que, sem querer, tinha assimilado o melhor do irlandês Samuel Beckett.
Suas maiores alegrias vêm da literatura?
Na velhice, sim. Vêm do ato de ler o que desejo ler e de escrever o que desejo escrever.