Lílian Carvalho de Miranda (Lili)

Uma cantora formiguense esbanjando talento, graça e delicadeza pelos palcos brasileiros

Lílian Carvalho de Miranda (Lili)
Lílian Carvalho de Miranda (Lili)

Há exatos 32 anos, um choro afinado tomou os corredores da Maternidade Santa Mônica, na Santa Casa de Caridade de Formiga. Era Lilian Carvalho de Miranda, a Lili, que chegava para musicalizar a vida.
Filha do empresário José Oswaldo de Miranda (o Estrelinha) e de Rosilane Carvalho Costa de Miranda (a Rose do Valvíquer e da Dona Lane), ela é grande revelação como cantora no circuito festivalesco, sempre com presença marcante, destacando-se em vários certames de MPB pelo Brasil.
Atualmente morando em Uberlândia, é casada com o não menos talentoso Raffael Silva Lopes, Sinhô Passarim, violeiro e poeta de rara sensibilidade. Juntos, têm sido premiados nos mais concorridos festivais.
Lilian é neta da professora Lídia Lane Carvalho Costa, Dona Lane, e do empresário Valvíquer da Costa. Seus bisavós são Edilze Braga de Carvalho (Dona Didi) e Felisberto de Carvalho. Tem bacharelado e licenciatura em História pela Universidade Federal de Uberlândia e atualmente é bacharelanda em Música Popular na mesma universidade. A cantora formiguense também é professora de musicalização infantil na cidade do Triângulo Mineiro. “Estou em Uberlândia desde agosto de 2004, morei até os meus 13 anos em Formiga. Sou formiguense e tenho muitas saudades da minha vida na cidade. Apesar de ter saído, acho que nunca me afastei da cidade”, comentou.

“a par”: Como foi sua infância em Formiga?
Lilian: Guardo as memórias mais preciosas de minha vida como criança. Foi uma infância bonita e contemplativa, tenho memórias profundas gravadas e ambientadas nos espaços mais queridos do meu coração. Brincava muito na pracinha da Matriz, que é meu lugar preferido na cidade depois da casa dos meus avós e bisavós. não me esqueço nunca dos almoços de sábado na minha Vovó Lane, dos domingos na Lagoa e de algumas tardes na Biblioteca Municipal, que eu tinha o hábito de ir quando passava o fim de semana na casa da Vovó Didi. Gostava muito de ficar por lá lendo quadrinhos e outros livros. Foi uma infância pura, que marcou profundamente, são lugares que sempre volto internamente quando bate a saudade. 

“a par”: Como foi a história do falecimento de sua mãe?
Lilian: Minha mãe partiu muito nova, aos 33 anos, eu tinha apenas 6, minha irmã Sarah, 7, e meu irmão, João Ildeu, 10. Não tenho palavras para descrever a dor profunda dessa perda. Como era muito nova, demorei para entender o que era morte, e que não a veria mais com os olhos do corpo. Minha mãe foi muito querida por muita gente, até hoje escuto histórias e conheço pessoas que gostavam muito dela tamanha sua grandeza de coração e meiguice. Cativou e cativa muita gente, ainda que pela memória. Ela partiu em decorrência de câncer no cérebro, chegou a fazer cirurgia e seu falecimento se deu por problemas na recuperação. Minha mãe é um sol radiante dentro de mim, minha fonte de força e segurança durante toda a vida, ainda que em outro plano, a flor mais cara do meu coração. Minha sorte foi ter vovó Didi, Vovó Lane, Tia Sérgia, Tia Lena e Tia Valquíria, que partilharam um pouco de si comigo à medida que fui crescendo, grandes referências de maternidade, amor, cuidado e força, me amparando e construindo a base dos meus passos. 

“a par”: Seus bisavós Dona Didi e Felisberto eram muito conhecidos em Formiga. Eles foram importantes na sua criação?
Lilian: Infelizmente, convivi muito pouco com o vovô Feliz. Quando ele faleceu, eu tinha 3 anos. Ouvi várias histórias da Vovó Didi e da Tia Ségia, que trabalhava com ela, de que ele gostava muito de mim e que brincava muito comigo.  Eu passava horas na sua antiga biblioteca, ele tinha livros muito interessantes, lembro-me da coleção completa das obras de Machado e Assis e de William Shakespeare.  Memórias de muito tenra infância. Já com a Vovó Didi, tive a graça divina de conviver até meus treze anos. Passava dias com ela enquanto meu pai viajava a trabalho, são memórias de tardes que me preenchem o coração de forma especial. Aprendi ponto cruz e crochê com a vovó e a Tia Sérgia, e muito mais do que isso, tive cuidados e amor em forma de sopinha, cafés da tarde e aquela tranquilidade que somente existe em casa de vó. Minha mãe também foi muito apegada com a Vovó Didi, tinha muita afinidade com ela, também foi uma neta muitíssimo amada. Vovó Didi era extremamente amorosa, mas séria, nos ensinava a polidez, educação à mesa, e, principalmente, retidão de caráter. Era muito católica e seu exemplo falava mais alto que suas lições. Apesar da responsabilidade da chefia de uma família grande, tinha muita ternura e um sorriso leve. Lembro-me até hoje do abraço que nos demos quando me despedimos quando mudei para Uberlândia. Ela faleceu dois meses depois.
 
“a par”: Onde você estudou em Formiga, de que se lembra?
Lílian: Comecei meus passos de aprendizado no Colégio Santa Teresinha. Guardo tesouros da alma ensinados pela irmã Terezinha, que era um amor muito grande de muitas crianças que passaram por ali. Também há uma imensa gratidão pela irmã Maria Clara, que nos ajudou muito depois do falecimento de minha mãe. Lembro-me especialmente das aulas de artes e de literatura. Não me recordo com clareza dos nomes das professoras (peço perdão de antemão), mas o mundo mágico se abriu por meio delas. Também estudei por um período curto no Rodolfo Almeida, onde minha avó Lane tinha sido diretora. Lembro especialmente da Tia Pida, que foi minha professora de Geografia e que, por graça divina, fez parte da minha família, era grande amiga da minha mãe. Sinto uma gratidão sem tamanho de ter convivido com ela, ainda que por pouco tempo. De certa forma, estar com as pessoas que amaram minha mãe me dá um gostinho de tê-la conhecido um pouco mais.

“a par”: Quando você se foi de Formiga?
Lílian: Foi em meados dos meus treze anos. Meu pai recebeu uma proposta para gerenciar uma loja muito grande, uma rede de eletrodomésticos, com uma unidade em Uberlândia. Como ele ficou viúvo muito cedo, sabia da responsabilidade de formar os três filhos. Meu irmão mais velho já estava com 18 anos, então, ele pensou em mudarmos para uma cidade maior, com mais oportunidades de emprego e estudo. O que mais chamou atenção do meu pai foi que Uberlândia sediava uma universidade Federal e tantas outras faculdades particulares, uma cidade que cresceu muito nos últimos anos.  

“a par”: Foi difícil a adaptação em outro município?
Lílian: Sim, foi muito difícil. Apesar de a cidade ser muito boa, o muito ruim foi ficar longe de minha família. Culturalmente, Uberlândia é mais parecida com o interior de São Paulo e Goiás. Para mim, foi um choque cultural dentro do nosso próprio estado, que possui regiões muito diversas. O que mais me estranhou no começo foi o sotaque com o “R” puxado. A minha primeira aula na escola foi de inglês e a professora só falava em inglês com o sotaque, ou seja, não entendia nada do que ela falava (risos). Mas a vida nos dá o imperativo de crescer, e Uberlândia nos deu, a mim e  meus irmãos, a oportunidade. Formamos em conhecimento e profissão, somos muito gratos pelo que a cidade nos proporcionou, ainda que saudosos do lar do nosso coração, que é Formiga. Quando mais nova, eu visitava Formiga com mais frequência, ia duas vezes ao ano e passava quinze dias na casa da Vovó Lane e da Tia Lena, era uma farra só. Hoje, a vida adulta me impede de ir com mais frequência, há questões relativas ao trabalho e à faculdade em Música Popular. Nos últimos três anos, temos participado de festivais em Formiga, unindo o útil ou agradável. Visitei pela última vez, meu avô Valvíquer quando participamos do Canta Formiga deste ano, no fim de maio. Infelizmente, ele faleceu em julho, são muitas memórias e saudades.

“a par”: Como e quando você se interessou por música?
Lílian: Quando criança, eu amava dançar, tinha o sonho de ser bailarina. Cresci e descobri que tinha boa voz pra cantar, vivia cantarolando no chuveiro como todo mundo. Minha mãe gostava de cantar pra gente, tinha uma voz muito bonita, tenho memórias preciosas de cantar com ela. Ela tinha um velho violão, que ficou guardado em um quarto lá de casa, ele exercia estranho magnetismo em mim. Bem nova, fitava-o como se ele guardasse um segredo. Mais velha, ouvi as histórias de que minha mãe adorava fazer serenata com o violão na sua época de juventude, ele foi presente do vovô Feliz. Quando meu irmão mais velho começou a trabalhar no escritório do Marcão, conhecido contabilista, ele mandou reformá-lo para poder ter aulas com um amigo. Logo depois, o violão foi encostado lá em casa. Lá pelos meus 16 anos, comecei a me interessar por ele. Aprendi a tocar para poder cantar, pois não tinha ninguém pra me acompanhar (risos). Música sempre foi o sonho mais alimentado e precioso guardado em mim. Não tive a oportunidade de me dedicar cedo à música, pois precisava estudar pra me formar em História. Dos meus 17 aos 21 cantei em um coral, depois, participei de uma banda de rock/samba na faculdade, mas ela se desfez quando guitarrista foi embora para um intercâmbio na Índia. Com meus 25 anos, meu sonho já estava se perdendo pela demanda da vida, até que conheci o Raffael Passarim, meu parceiro, que me salvou de mim mesma.

“a par”: Como começou a parceria?
Lílian: Nos conhecemos em um grupo de música voluntário. Encantei-me logo por ele, foi instantâneo. Nós não sabemos onde começa o relacionamento e termina a música. O Raffael já era compositor e já tinha criado as principais músicas do Sinhô Passarim, identidade artística que norteou suas próximas composições através da viola caipira. Quando ele compôs suas principais músicas, ele entendeu que essa seria sua identidade musical. Pra mim foi um encanto geral. Antes mesmo de namorarmos, ele me chamou pra cantar. Ele conta que um dia, antes de me conhecer, teve um sonho com um antigo amigo que havia falecido, que mandou o seguinte recado: “Olhai os lírios do campo”, uma passagem do Sermão da Montanha, de Jesus. Depois de nos conhecermos, contei para ele que meu nome era lírio em latim, e tudo fez sentido. Daí veio o nome Flor Bunita! E assim foi criada a dupla Senhor Passarim e Flor Bunita, nome que adotamos e com ele nos apresentamos em festivais.

“a par”: Vocês estão constantemente participando de festivais de MPB. Por que ir a festivais? Qual a emoção?
Lílian: Nós começamos a trabalhar em shows e barzinhos em Uberlândia no começo da nossa carreira, foi o meio que encontramos na época para mostrar o nosso trabalho autoral. Em 2019, chegamos a participar do Canta Formiga, porém não fomos classificados para a final. Em 2020, durante a pandemia, entramos em um projeto para gravar um disco à distância de artistas do triângulo mineiro, foi com Luiz Salgado e Erick Castanho no Movimento Cerrado, que foi aprovado pela Lei Aldir Blanc. A partir de então, fomos nos direcionando mais para o trabalho autoral, vendo, por meio dos festivais, oportunidades para além do trabalho presencial em Uberlândia. Os festivais são uma importante vitrine para mostrar o trabalho autoral no Brasil, por eles, conhecemos muitas cidades e tivemos a oportunidade de cantar nossa música. O valor disso, para nós, vai muito além da premiação, conhecer gente que gosta do nosso trabalho não tem preço. Pretendemos, muito em breve, iniciarmos os shows autorais.

“a par”: Vocês devem ter uma estante muito grande pra tanto prêmio…
Lílian: Somos considerados iniciantes se comparados aos grandes artistas festivaleiros que conhecemos pelas estradas. Este ano está sendo muito frutífero, só em 2023 já foram 13 prêmios,  por isso, decidimos compartilhar as alegrias, homenageando as pessoas que fizeram parte da nossa trajetória pessoal e artística, presenteando essas pessoas com os troféus que ganhamos. É uma forma de compartilharmos nossas alegrias.
“a par”: As composições que defendem são sempre de vocês?
Lilian: Quase sempre, a maioria são músicas do Passarim, sendo algumas em parcerias. Já chegamos a defender a música “Saudade do Zeca” do compositor Saulo Fagundes em dois festivais. Ficamos felizes com o convite, pois a música é muito bonita e por ele nos ver capazes de entregar a mensagem que colocou na música. Parcerias são sempre produtivas e nos dão a oportunidade de trabalhar e conhecer mais gente pelo Brasil. 

“a par”: Além dos festivais, fazem muitas apresentações?
Lílian: Por enquanto, estamos mais focados nos festivais para angariar fundos para lançarmos nosso primeiro EP, queremos gravar ainda este ano. Estamos sentindo esse chamado, pois estamos sendo muito divulgados pelos festivais. Atualmente, temos somente nossa participação no Movimento Cerrado, que já está em todas as plataformas.  Já fechamos com o produtor desse trabalho, que será nosso professor de Música Popular da UFU, o Carlinhos Menezes, que tem uma produção linda autoral com o Quarteto Vagamundo, além de ser um excelente arranjador. 

“a par”: Como é compor e apresentar canções mais ligadas às exigências artísticas do que ao apelo comercial?
Lílian: É o melhor dos mundos. O circuito de festivais nos possibilita dedicar em construir e divulgar nossa carreira da melhor maneira. Por isso, a importância no investimento em cultura em nosso país. Grandes artistas começaram como nós, da mesma forma. 

“a par”: Quais os estilos musicais dos quais vocês mais se aproximam?
Lílian: Nós temos como grande referência para o nosso trabalho artístico um grupo chamado Conversa Ribeira, de Campinas/SP. Os músicos fazem releituras contemporâneas de peças caipiras antigas, dando nova roupagem e nos possibilitando mergulhos artísticos na grande riqueza, que é a música de interior no Brasil. Além disso, o disco dedicado à música caipira da cantora Mônica Salmaso e, incontestavelmente, Almir Sater e Renato Teixeira, os pais da nova música caipira no Brasil são nossas grandes referências. Também não podemos nos esquecer de Goiá e Cascatinha e Inhana.

“a par”: Quais os projetos futuros?
Lílian: Além da gravação do nosso EP, temos a questão do nosso primeiro disco a ser gravado em 2024, que pretendemos fazer de maneira mais completa, com arranjos mais elaborados e gravações em estúdio. As canções já estão compostas, consideradas, por nós, a essência artística do nosso trabalho. São músicas que expressam sensibilidade acima de tudo…

“a par”: Quem quiser conhecer seu trabalho e do Raffael como deve fazer?
Lílian: É só nos seguir: @passarimeflor no Instagram.

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